terça-feira, 24 de agosto de 2010

O pesadelo



Dois anos passaram desde que nos apaixonamos, dois anos de namoro e dois anos de distância entre nós até que pudéssemos estar juntos. Foi difícil, mas aguentámos e agora podíamos estar juntos contra tudo e todos.
Estávamos finalmente a viver juntos na nossa casa em Lisboa. Queríamos tirar partido da nossa nova vida, uma vida que era apenas completa se nos tivéssemos um ao outro. Então fomos dar um passeio depois de jantar. Era uma noite nublada em que as nuvens negras nos impediam de ver as estrelas, as nossas estrelas.
Juntos vagueávamos pelas desertas ruas de Lisboa, não havia ninguém além de nós. Era estranho, mas estava contigo e nada mais importava. As nossas mãos estavam unidas e os nossos dedos entrelaçados. Sim, ao fim de dois anos tudo valeu a pena. De mãos dadas caminhávamos pelas ruas, eu nunca me sentira tão feliz como naquele momento. Estaríamos agora juntos para sempre? Era tudo o que eu queria. Tudo estava ao nosso dispor, e sentíamos livres de caminhar até na estrada. Caminhávamos e balançávamos as nossas mãos ligadas, juntos soltávamos gargalhadas de felicidade e trocávamos olhares de desejo. Então eu tomei a iniciativa: aproximei-me de ti para te beijar, agarrei-te no pescoço e na cintura, fechei os olhos e avancei no vazio. Onde estavam os teus lábios? Abri os olhos e tu não estavas lá. A minha companhia era agora o frio da chuva que abatera sobre mim e o som dos poderosos relâmpagos que rugiam no céu.
Tu não podias simplesmente desaparecer assim dos meus braços. Como um louco desesperado percorri rua após rua à tua procura, estarias algures ali perto. Não podias estar assim tão longe. A minha esperança era cada vez menor, e a minha desesperada loucura por te encontrar era mais forte. Então observei uma prova no passeio da rua, o anel que te oferecera em pedido de casamento brilhava iluminado pelos relâmpagos. As lágrimas começaram a correr pelo meu rosto, misturadas com as gotas de chuva que me molhavam. Continuei atrás de ti e cheguei a um rasto de sangue. Não podia ser! Segui o rasto e cheguei a um beco sem saída, sozinho, gelado e coberto pela escuridão. Passo a passo avancei para o inevitável.
Ali estavas. Os teus olhos abertos sem pestanejar fixavam o infinito, o teu pescoço rasgado em sangue pela faca abandonada a metros de ti. Explodi em lágrimas e soluços, caí de joelhos. Agarrei o teu corpo frio e inanimado nos meus braços. Tu tinhas morrido sem razão, e esse era o motivo pelo qual o meu mundo perdera o sentido. Sem ti, nada valia a pena. Esta dor era demasiado forte para suportar. Em agonia gritei o mais alto que pude a tua perda. A minha razão de viver era agora uma memória.
Caí num buraco negro sem fim, tudo acabara. Caí num buraco negro e levantei-me da cama. Respirava ofegante e as gotas de suor escorriam-me na face. O pânico tinha sido real mas o que acontecera foi apenas o pior pesadelo que já tive: perder-te. Mas, embora fosse um pesadelo, a dolorosa realidade é que continuas a 700km de mim.

(Texto baseado no pesadelo que tive várias noites, há semanas atrás.)

3 comentários:

  1. No entanto nada dura para sempre. Viver o presente torna-se muito aprazível quando se obtém esta percepção...

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  2. Realmente, nada dura para sempre. Aprendi isso hoje. :(

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  3. O segredo está no sentido que damos à palavra "sempre".

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